São Miguel do Gostoso é a nova meca dos kitesurfistas no Nordeste
CRIS GUTKOSKI
Colaboração para UOL Viagem, em São Miguel do Gostoso
A combinação de ventos fortes e belas praias de água morna, quase desertas, está fazendo de São Miguel do Gostoso a
nova meca dos kitesurfistas e windurfistas no litoral do Nordeste. A pequena
cidade fica 108 km ao norte de Natal, a capital potiguar, e tem acesso fácil,
pelas rodovias BR-101 e RN-221. No final de 2010 foi inaugurada ali, na praia
do Cardeiro, a terceira escola de esportes náuticos, comandada pelo atleta
Kauli Seadi, brasileiro que é tricampeão mundial de windsurfe na categoria
wave.
As três escolas – Dr. Wind, Escola Gostoso e Clube Kauli Seadi –
oferecem cursos para iniciantes ou veteranos no esporte, aluguel de
equipamentos e também funcionam como guarderias, espaços para abrigar velas e
pranchas. Devido à posição geográfica privilegiada, ao norte do Estado e
numa extremidade leste do litoral brasileiro, São Miguel do Gostoso registra
uma prolongada temporada de bons ventos, de cerca de nove meses por ano, a
partir de setembro. A presença de esportistas estrangeiros e de várias partes
do Brasil trouxe novos sotaques e atividades à antiga vila de pescadores, um
lugar tranquilo onde até poucos anos atrás as únicas velas no mar eram as dos
jangadeiros.
Aberta em 2007, a primeira escola, a Dr. Wind, é de um italiano que
desde o final da adolescência surfava nas Ilhas Canárias. Instalado na praia da
Ponta do Santo Cristo, atualmente a parte mais colorida e agitada da cidade
graças aos praticantes dos esportes, Paolo Migliorini diz que a velocidade
média dos ventos na região é de 18 a 24 nós e, em dias excepcionais, pode
chegar a 35 nós. Tornou-se comum, por exemplo, ouvir kitesurfistas pedindo para
aprontar “kite de nove”, ou equipamento de nove metros quadrados de vela, uma
pipa para ventos fortes. Para aprendizes, a escola de Paolo dispõe de
cursos de quatro e seis horas, sendo duas horas por dia.
O velejador italiano Paolo Migliorini, pioneiro nas escolas de kite e
windurfe em São Miguel.
O kitesurfe é um esporte radical: os praticantes literalmente voam sobre
as ondas, de prancha nos pés, suspensos pela vela que o vento infla e carrega.
A modalidade mistura manobras de surfe, windsurfe, wakeboard e vôo livre.
A tribo de kitesurfistas em São Miguel do Gostoso reúne de adolescentes a
sexagenários, com raras mulheres no grupo. Alguns se lançam no mar de óculos
escuros e capacete, já que a prancha, quando se solta dos pés, pode ser lançada
contra o corpo do velejador. O windsurfe se revela menos arriscado, mas exige
mais força nos braços, especialmente com uma ventania daquelas.
“O windsurfe só é radical se você é radical”, diz Eugênio Henrique
Schmidt, gerente do Clube Kauli Seadi e novo morador da cidade potiguar.
Paulista, Eugênio trabalhou na primeira escola do tricampeão mundial, em
Ibiraquera, Santa Catarina. Sobre pranchas largas, uma primeira aula de
windsurfe ensina a identificar a direção do vento, a manter as pernas na
posição correta, a erguer e manobrar a vela e a se equilibrar sobre as ondas. Parece
fácil e, mesmo que não seja, aprende-se também que esportes no mar envolvem
riscos. Nos finais de semana, as dezenas de velas de kite e winsurfe que partem
da Ponta do Santo Cristo mostram que o prazer e a adrenalina do contato com a
natureza falam mais alto do que o medo de despencar na água.
“Eu gosto do silêncio no mar”, resume Paolo. “Esse esporte não polui, só
usa a força do vento”. E que força. Foi um velejador italiano, conterrâneo do
pioneiro da Dr. Wind, que fez a provocação que faltava para que o dono de
restaurante André Gugelmin começasse a praticar o esporte: “Você tem a
Ferrari e não tem a chave?” A Ferrari se compara à qualidade do lugar, uma
combinação especial de praias com grandes faixas de areia, águas claras e
cálidas, emolduradas pela muralha verde dos coqueiros sempre sacudidos pelos
ventos. Um esporte náutico permite ver e vivenciar uma paisagem dessas de
ângulos espetaculares, aéreos, inclusive. Vindo do frio de Curitiba, André
Gugelmin, dono da pizzaria e batataria Spaço Mix, um point noturno, aprendeu a
velejar e usa intervalos da hora do almoço para aprimorar as manobras no
kitesurfe. “Agora temos a Ferrari, a chave, a escuderia, tudo”, diz.
Município de 10 mil habitantes, São Miguel do Gostoso tem esse nome
excêntrico em homenagem ao “seu Gostoso”, um antigo morador que hospedava
viajantes em casa e sempre tinha causos para contar. Ao final das sessões
noturnas, num tempo anterior à energia elétrica, ele sempre ria mais do
que os outros, e ficou conhecido como “o homem da risada gostosa”. A cidade se
emancipou da vizinha Touros com o nome de São Miguel de Touros, mas, em
plebiscito, votou pela memória de um contador de histórias de grande humor e
longa fama.
Junto dos esportes e do relax em pousadas equipadas com piscinas, ofurôs,
redários, mirantes e bibliotecas, quem gosta de comida e bebida também encontra
a sua praia em Gostoso. Já existe até um restaurante de cozinha mexicana à
beira-mar, o Jardim do Seridó, comandada por Rogério Brant, kitesurfista e
aprendiz do chef californiano James Halper na praia de Pipa. O guacamole que
acompanha burritos, nachos, quesadillas e tortilhas leva uma dúzia de
ingredientes, entre eles gengibre e açúcar mascavo. Na praia do Cardeiro,
camarões e outros frutos do mar podem ser degustados em cenário de
hotel-fazenda, no Mar de Estrelas. Os cajueiros formam a comissão de frente do
pátio, mas ele abriga também pés de umbu, araçá, goiti, limão, laranja,
graviola, açaí, goiaba, pitanga, seriguela, araticum etc.
A festa das pipas em São miguel do Gostoso, meca de kitesurfistas e
windsurfistas.
No Hibiscus, de visual romântico à noite, à meia-luz, o cardápio
contempla quitutes baianos como acarajé e bobó de camarão e invenções da
cozinha contemporânea como o filé de peixe com crosta de gergelim, especialidade
também do restaurante Xique-Xique, da Pousada dos Ponteiros, à beira-mar, que
serve ótimos coquetéis com sorvete: o Praia do Santo Cristo, em reverência à
orla preferida dos velejadores, leva vodka, sorvete de morango, Curaçao blue e
abacaxi. A 12 km do centro, na bela enseada da Ponta de Tourinhos, a
pernambucana Iara Félix prepara risotos de camarão ou polvo e apresenta
criações dela como risoto de caju ou manga. Pratos da cozinha tipicamente
nordestina como o escondidinho de camarão e o arrumadinho com carne de sol,
macaxeira, feijão verde, farofa e vinagrete estão no cardápio do Eskina Brasil,
no centro da cidade.
Os finais de semana trazem dois eventos gastronômicos: a feijoada na
Pousada Casa de Taipa, no almoço de sábado, para hóspedes e público em geral,
acomodados em frente ao jardim numa varanda em que mesas e paredes são quadros
de cores vivas do artista Kiko Prado, e a feira de pequenos produtores rurais
das segundas-feiras, a partir das 7h. A rua ao lado da Igreja de São Miguel Arcanjo
fica tomada de barracas de manga, caju, abacaxi, banana, mamão, carne bovina,
suína, roupas, artesanato e eletrodomésticos. Desde cedo, come-se tapioca com
guisado e bebe-se café ou cachaça. É possível nem reparar, porque o mar está a
três quadras de distância e as velas ainda estão recolhidas, mas olhando bem
kitesurfistas e windsurfistas também circulam pelo caos da feira de chinelo e
bermudas, são os donos ou funcionários de pousadas e restaurantes, escolhendo
as melhores frutas e legumes para mais uma semana deliciosa em São Miguel do
Gostoso.
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